Almanaqueiras: ou não queiras.

Almanaqueiras: ou não queiras.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

quem tem um 'jungmann' na defesa...

É grave suspeita de censura à Paraíso do Tuiuti

Começou mal intervenção federal no Rio
KENNEDY ALENCAR 

Se o governo queria diminuir a repercussão da sátira ao presidente da República, errou feio ao supostamente pressionar a Paraíso do Tuiuti a retirar a faixa presidencial do “Vampirão Neoliberalista” no desfile das campeãs do Carnaval carioca
É um episódio grave. Trata-se de censura, se estiver correta a versão de que um ministro teve a ideia de jerico de pressionar a escola. Se for um episódio de autocensura, porque a Presidência nega pressão sobre a Paraíso do Tuiuti, também é grave.
As escolas de samba não devem temer apenas o governador ou o prefeito do Rio. De agora em diante, deverão pisar em ovos para não melindrar o governo federal e as Forças Armadas.
O “Vampirão Neoliberalista” é uma sátira política legítima. Expressou opinião de parcela da sociedade. A escola tem o direito de criticar o presidente da República, de condenar a reforma trabalhista e de achar que manifestoches tiveram papel fundamental num golpe parlamentar contra a então presidente Dilma. Uma outra parcela da sociedade tem o direito de discordar
Quando ocorre uma censura ao livre de debate de ideias, vemos cenas parecidas com aquelas da ditadura militar de 1964. É uma ironia que um governo do PMDB, tanto no nível federal quanto no estadual, esteja no centro de um episódio de censura. Esse caso mostra que começou a mal a intervenção federal no Rio.

Por que um clássico não se renova?

POR QUE O FREVO NÃO SE RENOVA?

Urariano Mota



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“Por que o frevo não se renova?”, me perguntou na semana passada o amigo Joaquim Ancilon no Pátio de São Pedro, enquanto ouvíamos frevos de bloco. Joaquim é um professor, um homem honesto, mas nem por isso despreza perguntas de provocação. E em que momento oportuno ele fez a pergunta! No mesmo instante, lá no palco a senhora Lilia, ex-presa política, cantava:

“Felinto, Pedro Salgado,
Guilherme, Fenelon,
Cadê teus blocos famosos?
Bloco das Flores, Andaluzas,
Pirilampos, Apois-Fum,
Dos carnavais saudosos?

Na alta madrugada
O coro entoava
Do bloco a marcha-regresso
Que era o sucesso
Dos tempos ideais
Do velho Raul Morais:
‘Adeus, adeus, ó minha gente,
que já cantamos bastante..’
E Recife adormecia
Ficava a sonhar
Ao som da triste melodia….”

Não sei se foi o calor do uísque ou da raiva diante da pergunta, não sei se foi a lembrança da fase de ouro do frevo, com Nelson Ferreira, Capiba, Levino Ferreira, Edgard Moraes, João Santiago, não sei se foi a recordação do que um dia escrevemos sobre o gênio de Nelson Ferreira, quando dissemos que esses compositores de frevo de Pernambuco tinham o dom de falar do sentimento da gente com uma voz que atravessava a parede de uma sala vizinha. Esses compositores se referiam ao que sentimos com tamanha intimidade que são essa maravilha ainda não descoberta: um parente amigo da infância com quem não brigamos, que tem crescido em nosso afeto, nutrido no tempo incessante… não sei. Mas deve ter sido uma mistura de tudo isso, porque à pergunta

– Por que o frevo não se renova?

Respondemos com outra:

– Por que Dante não se renova?

Por que um clássico não se renova? Por que não temos mais A Divina Comédia? Por quê? As obras seminais, que fundam o nosso ser, não se renovam, não se encontram no mercado, não estão à venda. Estão para sempre, para a nossa reconstrução. A sua modernidade é a sua infindável permanência. A sua renovação é o seu dom de ser insubstituível. Mas ainda assim, ficamos pensando. Havia um travo de coisa ruim, de coisa que não está resolvida, na garganta, no peito. Está certo, viemos pensando, está certo, Nelson Ferreira hoje é impossível, ninguém mais, nunca mais será Nelson Ferreira, o grau de excelência que ele alcançou não se faz mais. Certo. Mas por que o frevo tem que ser somente à maneira e feição de Capiba, Nelson e Levino? Ora, se Dante não se renova, a poesia continua e continuará em outras faces que não a de Dante. Sim, e por que não? É impossível hoje algo como a Evocação número 1, é certo. É absolutamente improvável, absurdo, que se faça de novo Último Dia,.de Levino Ferreira. Mas o frevo acabou?

– Não. Todos os dias temos prova que não, em nossos dias, em nosso ser, nos novos intérpretes que vêm, alguns até bem jovens. Então… O frevo se renovou? Mas o que é mesmo renovar? – Certamente, não é repetir. Certo. Será algo então jamais visto, tão novo quanto seria um extraterrestre para o nosso convívio? E se assim for, como dizer que essa coisa jamais vista ainda é do mesmo gênero, do frevo? Ora. Então esse renovar deve com mais certeza aliar, resolver a tradição no presente. Há caminhos ainda não percorridos, a partir mesmo da tradição. Como pode ser visto com a orquestra Spok.

O maestro Spok vai na jornada das estrelas. Aquelas antecipações de Felinho ao executar Vassourinhas antes de 1950 passaram a ser retomadas pela orquestra de Spok, ao improvisar livre sobre a base da história do gênero, com liberdade, que sem ela nada se cria nem se transforma. Dele disse o maestro e compositor Clóvis Pereira: “A SpokFrevo, afinadíssima e conduzida por Spok, é uma orquestra formada por jovens de irrecusável talento musical e nos mostram que o frevo está mais vivo do que nunca, evoluindo cada vez mais”.

Que dizer, então, de J. Michiles, autor de muitos sucessos com Alceu Valença? Me segura senão eu caio, Diabo Louro, Roda e Avisa. Que dizer do Maestro Forró, da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério? Que dizer da civilização de Antonio Nóbrega, que dança, toca, canta e distribui o gênio do frevo em todo o mundo? Que dizer de Silvério Pessoa, que este ano arrebentou na Praça do Marco Zero? O mundo continua, a vida segue, apesar da saudade que deixa na gente Nelson Ferreira em todos os carnavais.

Foto: Samuca/Arte sobre foto da internet

*Este texto reflete única e exclusivamente a opinião do autor.

De todas as favelas do Rio, nenhuma tem uma porcentagem tão grande de criminosos quanto o Congresso.

Nenhuma favela é tão criminosa quanto o Congresso 

Gregorio Duvivier 




Viva a intervenção militar! Chegamos a tal ponto que só o Exército vai pôr fim à roubalheira. Só não entendi por que ela começou no morro do Rio de Janeiro.

Em Brasília, um terço dos congressistas está às voltas com a Justiça. De todas as favelas do Rio, nenhuma tem uma porcentagem tão grande de criminosos quanto o Congresso. Não somente em quantidade, mas em qualidade: duvido que a quantia total de furtos no Rio seja maior que a verba encontrada no apartamento de Geddel.

"Sim, mas o problema do Rio é o tráfico de drogas." Se o problema fosse exclusivamente esse, também deveriam começar por Brasília. Nenhuma favela do Rio jamais esconderá tanta cocaína quanto o helicóptero daquele senador do PSDB.

Há quem diga que a intervenção no Rio se dá por causa de um clamor popular. Pesquisa feita em 24h pelo governo federal afirma que 83% da população carioca é favorável à intervenção, noticiou o "Globo". Ora, se Temer se importasse, de fato, com o clamor popular, se retiraria imediatamente do cargo. Espanta que o presidente menos popular da história ainda esteja interessado em saber o que o povo pensa. Se a população for consultada, fica muito claro que a metástase a que ele se refere tem nome e sobrenome: o seu.

Depois, resta saber se algum favelado foi ouvido nessa pesquisa. Acho que não se encaixam na categoria "cidadãos" nem "cariocas". Vale lembrar que até o IBGE, um instituto muito mais sério que o governo Temer, ainda sustenta que a Rocinha tem 69 mil habitantes, enquanto a Light registra 120 mil e a Associação de Moradores estima em 200 mil. Se nem o censo subiu a favela, pode ter certeza de que Temer fez essa pesquisa que nem as plásticas da sua cara: a toque de caixa, pagando pra algum amigo.

A estratégia é batida. Assim como nas guerras americanas "ao terror", o governo inventa um adversário para unir a população. No caso dos americanos, escolhe-se um inimigo externo, de preferência bem longe, pro sangue não respingar. O Brasil não faz cerimônia: escolhe os iraquianos aqui mesmo, pela renda e cor de pele. Temos a sorte de ter uma parcela sub-humana da nossa própria população, de quem a morte não comove muito. Em tempos de crise, isso ainda gera economia em passagens aéreas.

Enquanto isso, o inimigo em comum continua sentado na cadeira presidencial. Já que Temer tá interessado em ganhar popularidade, fica a dica: seu desaparecimento é mais popular do que qualquer intervenção.

Gregorio Duvivier
É ator e escritor. Também é um dos criadores do portal de humor Porta dos Fundos.

s/c

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Por favor, respeitem a vontade do nosso presidente. Não compartilhe essa foto.

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"Chapa-branca e grana preta... Com a honrada exceção de sempre."

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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal: Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!

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Ponte pro Futuro. Direto pro círculo do inferno de Dante...

as pernas abertas da republica federativa.

Nesta terça-feira, 6, o FBI, a policia federal dos Estados Unidos, estrelou evento em São Paulo. Sobre corrupção, lavagem de dinheiro, fraudes, compliance... E a Lava Jato.

Bob Fernandes



Presente Antônio Carlos Vasconcellos Nóbrega, o Corregedor-Geral da CGU.

Presentes Chrstopher Delzotto, Supervisor Especial do FBI, e Leslie Bachchies, do FBI para América Latina.

Também George McEachern, ex-chefe do FBI para combate internacional à corrupção.

E Robert Appleton, Chefe de Execuções Governamentais e crimes do colarinho branco do CKR Law. Ex-promotor do Departamento de Estado dos EUA.

Evento esse do escritório norte-americano CKR e da Câmara Internacional do Comércio.

Lá estiveram empresários, investidores, advogados brasileiros. E foi proibida a entrada da imprensa.

Só imaginem: nossa Policia Federal estrelando evento como esse, debatendo e pontificando sobre casos de corrupção em território norte-americano. E vetada a presença das Mídias.

No governo Fernando Henrique, Carlos Costa chefiou o primeiro escritório oficial do FBI no Brasil. Entrevistei-o, para 17 páginas. Chamou a tudo isso "influenciar". Cooptar.

Dezenove agências de espionagem dos EUA atuando no Brasil, sediadas na Embaixada, em Brasília

Jack Ferraro chefiava a CIA. Antes dele, Craig Peter Osth, Bock, Jimmy, e Bramson Brian.

DAT, a Divisão Anti-Terrorismo da Polícia Federal, já se chamou CDO e SOIP.

Essa instalação de espionagem eletrônica foi criada no governo Sarney. Com doação da CIA. Cada tijolo. E os primeiros 20 automóveis, que vieram da base da CIA/ Paraguai.

Nos anos FHC, a CIA chegou a ter 15 bases regionais no Brasil. No SOIP/ CDO, a CIA atuava com a PF em "regime de informação compartilhada".

Não havia dinheiro antes de Marcio Thomas Bastos, ministro da Justiça, e Paulo Lacerda chefiando a PF. Ambos no primeiro governo Lula.

Mostramos, ainda sob FHC, depósitos feitos pela DEA, agência norte americana de combate às drogas, na conta de delegados brasileiros. Para financiar operações.

No hoje DAT, agente brasileiro só trabalhava se aceitasse se submeter ao detector de mentiras. Testes feitos nos EUA. Com indagações sobre ser ou não corrupto e homossexual.

Então revelamos os nomes de vários agentes que se submeteram a tais testes.

Pós 11 de setembro o Chefe do FBI no Brasil, Carlos Costa, recebeu e recusou uma ordem: grampear, espionar mesquitas e líderes muçulmanos no Brasil.

Brasil, que teve grampeados Palácio da Alvorada e Itamaraty. Biotecnologia, química fina, aço, biopirataria, telecomunicações, energia, entre os alvos.

Com Obama, o escândalo via WikiLeaks e soubemos: a NSA invadiu sistemas e tentou hackear a Petrobras. E grampeou telefones de Dilma, do Palácio do Planalto e autoridades.

Em 1999, chefiando provisoriamente a embaixada, que estava sem embaixador, quando confrontado o Encarregado de Negócios, James Derham, foi claríssimo:

-Temos o dinheiro, pagamos, então as regras são as nossas.

Segue o baile. Bom Carnaval.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

perdeu, especulador.

Os solavancos já haviam começado na sexta-feira e, agora, se impõe o temor de que o Federal Reserve, o banco central norte-americano, suba suas taxas de juros de maneira mais acelerada do que o inicialmente esperado
Bolsa de São Paulo acompanha queda, com Ibovespa retrocedendo 2,59% e com alta do dólar. O que move o abalo de nervos é a expectativa de que o BC dos…
BRASIL.ELPAIS.COM

perdeu, playboy.


R$ 196 mil de pensão alimentícia.
Reportagem de César Galvão e Filipe Gonçalves da TV Globo. A Policia Civil de São Paulo prendeu o ator Dado Dolabella na noite desta segunda-feira (5) após a…
DIARIODOCENTRODOMUNDO.COM.BR

Quando estamos sozinhos, a indignação nos embriaga como se fosse uma droga. Arrebata a alma, enfurece as vísceras, dilata os pulmões e nos faz acreditar na veemência do nosso ódio. Viramos heróis justiceiros diante de nós mesmos.

A indignação enfurece as vísceras e nos embriaga como se fosse

Jorge Coli


Não faz muito tempo, fui assistir a uma ópera. Era "As Bodas de Fígaro", de Mozart. Lá para o final, o personagem mais importante, Fígaro, faz um retrato cruel das mulheres. Diz: "Abram um pouco os olhos, homens incautos e bobos. Olhem essas mulheres, olhem o que elas são".

Segue enumerando: "São bruxas que enfeitiçam para nos deixar sofrendo, sereias que cantam para nos afogar... São rosas espinhosas, raposas maliciosas, mestras de engano e de angústias, que fingem e mentem, que amor não sentem, não sentem piedade". Conclui: "O resto do que são capazes não digo: cada um já sabe". E Mozart, com seu humor malicioso, faz então soarem as trompas: o nome do instrumento em italiano é "corno".

No século 18, quando "As Bodas de Fígaro" foi composta, a sala toda ficava iluminada. Não se deixava o público no escuro, como hoje. Os cantores podiam então interpelar diretamente a assistência. Na montagem que vi, o diretor de cena teve a ideia de acender as luzes da sala durante a ária de Fígaro, que saiu do palco e dirigiu-se aos homens presentes.

Eu estava na extremidade da fileira, ao lado do corredor por onde ele passava. Logo atrás de mim, na segunda fila, uma senhora furiosa levantou-se. Fez o sinal de "não" nas fuças do pobre cantor e retirou-se protestando em voz alta. De início, pensei que fosse parte do espetáculo —hoje em dia, com as montagens modernas, tudo é possível. Mas não, era uma feminista embravecida.

Pensei que ela poderia ter prestado mais atenção. O tema nuclear de "As Bodas de Fígaro" é atual: trata-se de desmascarar, denunciar e punir um poderoso aristocrata que é violento predador sexual.

A peça da qual a ópera foi extraída é de um francês, Beaumarchais. Pareceu subversiva e foi proibida. Nela, a velha Marcelina proclama, de maneira eloquente, a tirania masculina.

Diz, entre outras coisas: "Mesmo na sociedade mais elevada, as mulheres obtêm dos homens apenas uma consideração irrisória... Somos mantidas numa real submissão, tratadas como menores de idade no que se refere aos nossos bens, mas como maiores quando devemos ser punidas". Mozart excluiu esse trecho para evitar a censura, mas, ainda assim, fez uma clara acusação antimachista.

Aquela senhora furiosa não deu tempo para a conclusão da ópera, não viu a condenação do conde brutal e revoltou-se antes do tempo. Tal suscetibilidade, irritada pela situação inferior em que, do modo mais injusto, as mulheres são mantidas em nossas sociedades, é compreensível. Levou-a a partir antes que as acusações de Fígaro contra o gênero feminino fossem desmentidas. Indignou-se cedo demais.

Indignação: eis o problema. Nunca tive simpatia por essa palavra. Pressupõe cólera e desprezo. Quando estamos sozinhos, a indignação nos embriaga como se fosse uma droga. Arrebata a alma, enfurece as vísceras, dilata os pulmões e nos faz acreditar na veemência do nosso ódio. Viramos heróis justiceiros diante de nós mesmos.

A solidão indignada faz grandes discursos interiores contra aquilo que erigimos como inimigo. Serve para dar boa consciência. É autossatisfatória. Um prazer solitário. Exaltados, arquitetamos vinganças e reparações. Depois, o balão murcha, sobrando apenas nossa miserável impotência. Talvez tenha sido Stendhal o escritor que melhor caracterizou esses estados irritados, ineficazes e inócuos.

Ao se manifestar na presença de outra pessoa, ou de duas, ou num pequeno grupo, a indignação leva ao descontrole. Nervosos, falamos alto e dizemos coisas que, na calma, jamais pronunciaríamos.

Quando um de seus heróis se deixa levar pelos discursos coléricos, Homero faz alguém sempre repreender: "Que palavras ultrapassaram a barreira de teus dentes!". Porque não somos mais nós que falamos, mas algo que está em nós e que ocupou nosso corpo esvaziado de qualquer poder reflexivo: a indignação. Assim também ocorre com os jorros furibundos de palavras que inundam as redes sociais.

A multidão indignada é, por sua vez, uma catástrofe. Tomada por um furacão de pulsões, ela atropela, esmaga, lincha.

A indignação trava as forças racionais. Alimentada pelas paixões, usa uma aparência de razão como fole para soprar nas brasas. Está claro, aceita só argumentos que servem a reforçar e ampliar seu domínio. É feita de radicalismos.

Assim, anula todas as complexidades e nuanças, bloqueia qualquer compreensão que não seja inteira e simplificada. Anula também o outro, como ser humano, se ele não compartilhar de nossa própria indignação.

Jorge Coli
É professor titular de história da arte na Unicamp e autor de "O Corpo da Liberdade" (Cosac Naify). Escreve aos domingos, uma vez por mês.

Continuam "pisando no povo"!!!

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O Parlamento recebeu hoje milhares de assinaturas contra a Reforma da Previdência, mas pela foto dá pra perceber que há gente que ainda se mantém insensível e distante da realidade do povo. Continuam "pisando no povo"!!!

depois não me venha com chorumelas, lamúrias, lengalengas...

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E você? Como se classifica na questão da (in)fidelidade?

Como você se classifica na questão da (in)fidelidade?

Mirian Goldenberg


A maior parte afirma ser fiel, mesmo admitindo ser "natural" sentir atração por outras mulheres

No livro "Por que homens e mulheres traem?" analisei o discurso de homens que afirmam ser "poligâmicos" e "monogâmicos".

Alguns homens disseram que são "poligâmicos por natureza", e que, mesmo felizes com as esposas, não podem trair a si mesmos e negar o desejo por outras mulheres. Eles acreditam que a fidelidade é uma violência contra a própria natureza.

A maior parte dos meus pesquisados afirmou ser (ou querer ser) fiel, mesmo admitindo ser "natural" sentir atração por outras mulheres. No entanto, encontrei vários tipos de "monogâmicos".

Alguns homens disseram que são "poligâmicos por natureza", e que, mesmo felizes com as esposas, não podem trair a si mesmos e negar o desejo por outras mulheres
Alguns homens disseram que são "poligâmicos por natureza", e que, mesmo felizes com as esposas, não podem trair a si mesmos e negar o desejo por outras mulheres - Heidy Norel
Muitos são, como um ator de 48 anos, "monogâmicos por amor":

"Demorei para encontrar o amor da minha vida. Tive muitos relacionamentos que só me fizeram sofrer. Agora estou feliz. Por que iria correr o risco de perder a minha esposa? Por uma transa sem qualquer significado? Sei que é difícil encontrar uma mulher tão especial. Não sou idiota de jogar no lixo um amor como o nosso".

Outros são "monogâmicos por opção", como um médico de 57 anos:

"Tenho uma relação de muito companheirismo, minha mulher sempre me apoiou nos momentos mais difíceis da minha vida. Só se eu fosse um cafajeste conseguiria mentir e trair a minha melhor amiga. Infelizmente, conheço muitos homens assim".

Alguns são "monogâmicos infiéis": traíram as esposas em momentos de crise do casamento ou um pouco antes da separação.

Encontrei um advogado de 50 anos que é "monogâmico sucessivo":

"Caso, sou fiel, separo, caso, sou fiel, separo e assim sucessivamente. Tenho como lema: não faça ao outro o que não quer que façam com você. Casei e separei cinco vezes, mas sempre fui fiel".

Por fim, um engenheiro de 61 anos disse que é "monogâmico por preguiça":

"Já tive muitos casos, mas, na minha idade, não tenho mais condição física, financeira e psicológica para ter amantes. As mulheres não aceitam mais um homem pela metade. Já se foi o meu tempo de ter uma mulher em casa e outras na rua. Não quero mais confusão na minha vida".

Ele conclui: "Sou fiel só por preguiça! Trair dá muito trabalho! Mal consigo satisfazer as demandas e cobranças da minha esposa, como poderia administrar as exigências de duas ou três mulheres?"

E você? Como se classifica na questão da (in)fidelidade?

Mirian Goldenberg
É antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autora de "A Bela Velhice". Escreve às terças, a cada duas semanas

As mulheres ainda não podem exercer seu pleno direito de ir e vir. Se ainda por cima forem negras e pobres, são o fim da cadeia alimentar o que pode ser agravado se forem profissionais do sexo ou transexuais.

Quero ir ao boteco sozinha 

Vera Iaconelli 


Assisti a um excelente debate sobre cantada, assédio e outros bichos e trago algumas das questões trabalhadas, deixando outras para a próxima.


Localizar as conquistas femininas no mapa e no tempo nos ajuda a entender sua proximidade e precariedade. O direito ao voto, à escolha do cônjuge, a falar em público, a não transar com o marido, a controlar a reprodução são liberdades recém conquistadas, que ainda estão longe de contemplar todas as mulheres e que desavisados podem supor que sempre estiveram aí.

No final do século 19 esses direitos não eram acessíveis nem nos países mais liberais e, uma vez conquistados, nem todos foram mantidos. Que o Irã, onde a geração da minissaia deu lugar à geração da burca, nos sirva de exemplo. Mas, se ao ler Irã, você sentiu alívio por morar num país onde as mulheres podem usar top, não se dê ao trabalho de comemorar e não deixe que a comparação lhe suba a cabeça. O que é menos péssimo não deveria nos servir de consolo.

As mulheres ainda não podem exercer seu pleno direito de ir e vir. Se ainda por cima forem negras e pobres, são o fim da cadeia alimentar o que pode ser agravado se forem profissionais do sexo ou transexuais.

Todos os paulistanos saem de casa com algum grau de temor por sua integridade em função da violência. Os rapazes negros e pobres que de "tão pretos são pobres e de tão pobres são pretos" como diriam Caetano Veloso e Gilberto Gil sabem bem disso, pois seu direito de ir só não é maior do que sua chance de não voltarem vivos, haja vista o diuturno assassinato desses jovens da periferia.

No entanto, as mulheres experimentam um constrangimento sistemático, não contingencial, na ocupação do espaço público. Exagero?

Uma pessoa chega num bar à noite, pede uma cerveja, senta só, apreciando o movimento, talvez buscando o cruzamento de um olhar que lhe interesse. Essa pessoa sai do bar às 4h da manhã para pegar um táxi. Quem pode fazer isso sem ser importunado? Faz diferença se é um homem ou uma mulher? Quem será abordado mesmo sem ter dado nenhum sinal de estar interessado? Sinais de interesse, entenda-se, seriam um olhar, um sorriso, um aceno, que abrisse caminho para uma abordagem direta.

Não meninas, não tentem fazer isso fora de casa, ok?, pois se trata de um tabu que ainda não foi quebrado por nós. Ainda não conquistamos esse direito, e corremos o risco de termos que justificar para o delegado o porquê de termos sido, no mínimo, assediadas.

Estamos querendo demais? Usemos um exemplo mais banal.

Vila Madalena, 14h30, saindo com minha filha de 15 anos de um restaurante, ouvimos as maiores baixarias dirigidas a ela, vindas de um grupo de homens do outro lado da rua. Constrangida, finjo ignorar as falas com medo de expô-la ainda mais. Já dentro do carro, voltando para casa, passamos pela porta do local. Num ímpeto, paro o carro e desço o vidro protegida do espaço público. A solicitude do brasileiro em dar informações é prontamente exemplificada, com os rapazes se aproximando para nos atender. Olho no olho, informo que somos aquelas que tiveram que ouvir as falas indecentes dos cavalheiros. Constrangimento, pedidos de desculpas e minha filha teve mais uma amostra do que a aguarda como mulher. Ainda.

Vera Iaconelli
Psicanalista, fala sobre relações entre pais e filhos, as mudanças de costumes e as novas famílias do século 21

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Afinal, a lei é para todos. Ou não?

Moro leva debate de auxílio-moradia para esfera da legalidade
Se é salário, tem de obedecer teto e pagar imposto


KENNEDY ALENCAR

Apesar de ruim, a justificativa do juiz federal Sergio Moro para receber o auxílio-moradia não é hipócrita. Ajuda a tirar a discussão do campo da moralidade e levá-la para o da legalidade.

Na sexta, ao ao admitir que o auxílio-moradia era um complemento salarial em função de reajustes que não ocorreram, Moro reforçou o argumento de que o benefício é utilizado para burlar o teto constitucional.

Se é salário, tem de estar dentro do teto. Se é salário, tem de pagar imposto de renda. Se não está dentro do teto nem há desconto de imposto de renda, ocorre uma flagrante ilegalidade.

No fundo, a liminar do ministro Luiz Fux, concedida há quase 4 anos, não legalizou nada. Apenas deu um jeito de ferir a norma constitucional e criar uma farra no Judiciário com aval do Supremo Tribunal Federal, que se omitiu e empurrou a questão para debaixo do tapete.

O juiz federal Marcelo Bretas e o procurador da República Deltan Dallagnol costumam dizer que o dinheiro da corrupção deixou de ir para a saúde, aumentando as mortes em hospitais que convivem com a crônica falta de verbas. Dá para dizer que o dinheiro do auxílio-moradia pago indevidamente a magistrados e procuradores também deixou de ir para a saúde e que a sua falta contribuiu para matar gente.

A declaração de Moro tem o aspecto positivo de acabar com essa justificativa vergonhosa de juízes federais e procuradores de que há uma campanha para acabar com o auxílio-moradia porque eles estão combatendo a corrupção. Estão, sim, defendendo um privilégio, uma mordomia.

Pior: na intepretação da lei penal feita por Moro, Bretas e Dallagnol, seria possível considerar o pagamento dessa mordomia como uma forma de corrupção, porque o auxílio-moradia seria um complemento salarial disfarçado a fim de ultrapassar o teto constitucional de R$ 33,7 mil, com o agravante de não recolher imposto de renda. Nessa condição, o recebimento do auxílio-moradia para compensar a falta de reajustes salariais poderia ser evidência ou indício de um crime de peculato, no qual um funcionário se apropria de um valor ou bem móvel, público ou privado, em razão do cargo, conforme está tipificado no Código Penal.

No debate sobre o auxílio-moradia, magistrados e juízes estabeleceram um critério ético elástico para benefício próprio que não aplicam em relação aos acusados e réus que processam e julgam. A omissão e o corporativismo do Supremo são parte do problema.

Na semana passada, a presidente do Supremo, Cármen Lúcia, disse: “A nós, servidores públicos, o acatamento irrestrito à lei impõe-se como deve acimar de qualquer outro”. Ora, já passou da hora de o Supremo analisar essa questão e impor, no caso, o cumprimento do teto constitucional.

Há previsão de que o tribunal julgue no próximo mês a liminar de Fux. O Supremo deveria determinar a devolução dos valores recebidos indevidamente ou, no mínimo, o recolhimento de impostos que não foram pagos desde a farra criada pela decisão provisória do ministro do STF. A Receita Federal, por exemplo, deveria cobrar o que foi sonegado. Afinal, a lei é para todos. Ou não?

Lula vai preso? Quando?

Lula pode evitar a prisão asilando-se

ELIO GASPARI

"Nosso Guia" poderá achar que é melhor chorar no exílio do que em Curitiba



Lula vai preso? Quando? Existe uma outra possibilidade. Diante da prisão inevitável e próxima, Lula entra numa embaixada latino-americana, declara-se perseguido político e pede asilo diplomático. Não há nenhuma indicação de que ele pretenda fazer isso, mas a realidade ensina que esse caminho existe.

Pelo andar da carruagem, Lula será preso para cumprir a pena que lhe foi imposta pelo TRF-4. Está condenado a 12 anos de cadeia, e dois outros processos poderão render novas penas. Aos 72 anos, ralará alguns anos anos em regime fechado até sair para o semiaberto.

Como é melhor chorar no exterior do que rir na carceragem de Curitiba. Lula sabe que dispõe do caminho do asilo diplomático. Considerando-se perseguido político, conseguiria essa proteção em pelo menos duas embaixadas, a da Bolívia e a do Equador. Pedir proteção aos cubanos ou aos venezuelanos só serviria para queimar seu filme.

Para deixar o Brasil, Lula precisaria de um salvo-conduto do governo de Michel Temer. Bastariam algumas semanas de espera, esfriando o noticiário, e ele voaria. Uma vez instalado no país que lhe deu asilo, ele poderia viajar pelo mundo. Mesmo que voltem a lhe tomar o passaporte, isso seria uma irrelevância. Até 1976, João Goulart, asilado no Uruguai, viajava com passaporte paraguaio.

O asilo de Lula poderia agradar ao governo, pois, preso, ele seria defendido por uma constrangedora campanha internacional. (Guardadas as proporções, como aconteceu com o chefe comunista Luís Carlos Prestes entre 1936 e 1945.)

A vitimização de Lula perderia um pouco de dramaticidade, mas as cadeias ensinam que com o tempo a mobilização murcha, e a solidão da cela toma conta da cena.

A gambiarra tem um inconveniente. Ele só poderia voltar ao país nas asas de uma anistia.

SURGIU UM KENNEDY NO TRUMPISTÃO

O partido Democrata designou o deputado Joseph Kennedy III para discursar na contradita à fala de Donald Trump na sessão de reabertura do Congresso americano. Ele falou durante 13 minutos e, quando terminou, o partido Democrata tinha uma nova estrela.

Com algum exagero, a cena foi comparada ao discurso de um senador pouco conhecido na convenção democrata de 2004. Chamava-se Barack Obama e tinha 43 anos. Quatro anos depois ele foi eleito presidente dos Estados Unidos.

Joseph Kennedy III tem 37 anos, está no segundo mandato de deputado e é neto de Robert Kennedy, o senador assassinado em 1968, aos 43 anos, quando estava na bica para ser eleito presidente. Cinco anos antes, seu irmão John morrera em Dallas. (O mais velho da prole, Joseph, explodiu com seu avião durante a Segunda Guerra.)

O breve discurso de Kennedy o colocou na lista de notáveis do partido. Respondeu ao septuagenário Donald Trump com uma peça de perfeita oratória. Unificadora num país dividido, benevolente numa sociedade crispada, ele apontou para o futuro numa época de intransigências vindas do passado. Condenou o muro que Trump quer construir na fronteira com o México com um toque da maestria retórica de Ronald Reagan em Berlim: “Minha geração vai derrubá-lo”. Surpreendeu, dirigindo-se aos imigrantes em espanhol: “Vamos a luchar por ustedes”. (Ele passou dois anos na República Dominicana fazendo trabalho voluntário.)

Foi um discurso de candidato a muito mais. Pela primeira vez um Kennedy vai para a cabeceira da pista com chances de decolar. Seu pai foi um deputado medíocre, alguns de seus primos se meteram em escândalos. Com um currículo de primeira (diplomado pelas universidades de Stanford e Harvard), Joseph é abstêmio, casou-se com uma colega de faculdade e tem uma cabeleira normal, que lembra um pouco a do avô, nada a ver com a marquise laqueada de Trump.

FHC E HUCK

Um tucano sábio e bem informado desconfia, e tem razões para isso, que Luciano Huck é o candidato que Fernando Henrique Cardoso guarda na manga.

Um pedaço da banca torce o nariz para um candidato vindo da telinha, mas outro assegura que esse detalhe pode ser compensado colocando-se um tutor na vice. Para começo de conversa, poderia ser Paulo Hartung, atual governador do Espírito Santo.

É sempre bom recordar que em 1989 o PSDB cogitou colocar o ator Lima Duarte como candidato a vice de Mário Covas. À época ele era o grande astro da novela "O Salvador da Pátria". Como se sabe, a pátria acabou entregue a Fernando Collor.

A PF E O REITOR

Passaram-se quatro meses da manhã em que o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina Luiz Carlos Cancellier matou-se, jogando-se do sétimo andar de um shopping de Florianópolis.

Anunciou-se que se investigava um desvio de R$ 80 milhões. Sabe-se que isso era fantasia, e já se sabe que Lula foi condenado pelo TRF-4. Passados quatro meses, não se sabe quais irregularidades foram cometidas pelo reitor, ou por quem quer que seja.

Ele seria culpado de tentar obstruir a ação dos investigadores, mas ainda não apareceu um só depoimento convincente para sustentar essa acusação.

RISCO ALCKMIN

​Se a ventania da Lava Jato ou as investigações das roubalheiras ocorridas no setor metroferroviário de São Paulo jogarem um cisco na candidatura de Geraldo Alckmin, ela sai dos trilhos.

ASTÚCIA CRUEL

O TRF-4 elevou a pena de Lula para 12 anos e um mês. Esse mês adicional pode ter parecido uma crueldade irrelevante numa sentença para um homem de 72 anos.

Irrelevante não foi. Se Lula tivesse sido condenado a apenas 12 anos, seus advogados poderiam sustentar que seu crime estaria prescrito em 2017, oito anos depois do fato. Quando os desembargadores apensaram mais um mês, mudaram Lula de patamar, e a prescrição só poderia ser arguida em 2019.

GAVETA

Terminadas as férias do Judiciário, a Procuradoria-Geral da República deverá devolver ao Supremo Tribunal Federal o processo em que Rodrigo Janot pediu que o ministro Gilmar Mendes fosse impedido de julgar casos envolvendo o empresário Jacob Barata Filho.

O processo foi pedido para vista pela procuradora Raquel Dodge no final de setembro e enviado para exame por cinco dias.

GOLPE EM CARACAS

O secretário de Estado americano, Rex Tillerson, acha que uma das soluções para a crise venezuelana seria um golpe militar.

Ele e todos os defensores de soluções militares para a América Latina se esquecem que o coronel Hugo Chávez celebrizou-se em 1992 liderando um golpe militar fracassado.

Segundo o doutor, “na História da Venezuela e dos países sul-americanos, às vezes o Exército é o agente da mudança quando as coisas estão tão ruins e a liderança não mais serve ao povo”.

O penúltimo militar golpista a governar a Venezuela foi o general Pérez Jiménez. Larápio, foi deposto em 1958, fugiu para os Estados Unidos e lá viveu até 1963, quando foi devolvido aos venezuelanos e passou cinco anos na cadeia.

as bestas continuam sem entender nada.

‘O ódio de hoje lembra muito o dos anos 30’

Aos 88 anos, Eva Schloss, amiga de infância de Anne Frank, afirma que mundo não aprendeu nada com o nazismo

Entrevista com
Eva Schloss, escritora e sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz

Sobrevivente do Holocausto, Eva Schloss foi amiga de Anne Frank

GENEBRA - “O ódio está fazendo com que tenhamos um clima muito parecido ao que existia nos anos 30, às vésperas da 2.ª Guerra.” O alerta é de Eva Schloss, sobrevivente do Holocausto e amiga de Anne Frank. Nos últimos anos, ela se dedicou a falar sobre os horrores da guerra. Agora, para que sua mensagem permaneça, ela fez parte de um projeto que transformará sua imagem em holograma, que correrá escolas de todo o mundo condenando a intolerância. A seguir, trechos da entrevista ao Estado:
Aos 88 anos, o que leva a sra. a contar sua história pelo mundo?
 O mundo está vivendo um período de insegurança. Muito ódio, preconceito e conflitos ao mesmo tempo. Parece o tempo de Hitler. O ódio está fazendo com que tenhamos um clima parecido ao que existia nos anos 30, às vésperas da Segunda Guerra.
Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo
04 Fevereiro 2018 | 05h00
GENEBRA - “O ódio está fazendo com que tenhamos um clima muito parecido ao que existia nos anos 30, às vésperas da 2.ª Guerra.” O alerta é de Eva Schloss, sobrevivente do Holocausto e amiga de Anne Frank. Nos últimos anos, ela se dedicou a falar sobre os horrores da guerra. Agora, para que sua mensagem permaneça, ela fez parte de um projeto que transformará sua imagem em holograma, que correrá escolas de todo o mundo condenando a intolerância. A seguir, trechos da entrevista ao Estado:
Aos 88 anos, o que leva a sra. a contar sua história pelo mundo?
 O mundo está vivendo um período de insegurança. Muito ódio, preconceito e conflitos ao mesmo tempo. Parece o tempo de Hitler. O ódio está fazendo com que tenhamos um clima parecido ao que existia nos anos 30, às vésperas da Segunda Guerra.to. Claro, o fenômeno do terrorismo faz as pessoas terem medo. Foi incrível ver Angela Merkel receber 1 milhão de refugiados. No início, a população aceitou. Mas depois de alguns atentados, o clima mudou. 
A ascensão da extrema direita na Alemanha lhe preocupa? 
Claro! E muito. Mas não se trata apenas de um problema da Alemanha. Vemos isso na Hungria, na Áustria, na Holanda, na França. Hoje, eles não são maioria ainda. Esperamos que mudanças ocorram, que as pessoas sejam razoáveis. 
O mundo não aprendeu com a guerra?
Não. As pessoas não aprenderam nada. Em tecnologia, demos um salto incrível. Mas temos uma outra cultura. O mundo viu a chegada de uma abundância inédita. Mas as pessoas se tornaram ainda mais mesquinhas. Os bancos hoje ganham com nosso dinheiro e, ao mesmo tempo, não dão de volta nenhum tipo de juros aos clientes que depositam suas economias. Isso tudo leva ao ódio e à corrupção. 
Sempre teremos de ser lembrados dos horrores para evitá-los?
Você ficaria surpreso com as coisas que vejo pelo mundo. No ano passado, estive no Japão e fiquei impressionada com o fato de eles não conhecerem nada de história, muito menos sobre o que ocorreu na Europa. Espero que um dia a sociedade mude e não haja mais a necessidade de falar em ódio. Mas, até la, precisamos repetir essa mensagem e lembrar o que ocorre quando levamos o ódio ao extremo.
Antes de ser deportada para um campo de concentração, o que se sabia sobre Auschwitz?
Não sabíamos que seríamos divididos, que nossa família seria desmembrada. Sabíamos da existência de Auschwitz, que ali estavam morrendo milhares de judeus. Não éramos autorizados a escutar a BBC. Mas, mesmo assim, era deles que ouvíamos as histórias dos campos de concentração. 
Quais são suas memórias de quando chegou ao campo?
Ficamos em choque quando colocaram homens de um lado e mulheres de outro. Não sabíamos que isso ocorreria. As mulheres foram para Birkenau, enquanto os homens foram para Auschwitz. Eram próximos. Mas, obviamente, para nós, eram dois mundos separados. Foi um momento horrível. Dar adeus a seu próprio pai, sem saber se jamais voltaria a vê-lo. Lembro-me apenas de ele dizer: Eva, Deus vai te proteger. 
Como era a vida no campo?
Os guardas nos acordavam cedo. Não havia relógios, não sabíamos que dia era. Mas isso não fazia diferença. Todos os dias eram iguais. Ficávamos diante das camas, de pé. Enquanto isso, os soldados contavam quantas pessoas estavam no campo. Isso levava duas horas. Só depois é que recebíamos o café da manhã, um líquido que não tinha gosto de nada. Depois, nos levavam para trabalhar. Não havia comida durante o dia. Não havia pausa e, no verão, nossas cabeças raspadas pareciam aumentar o calor. Tive queimaduras na cabeça. Ao voltar para as barracas, ficávamos de pé, diante das camas, enquanto os soldados voltavam a contar. O jantar não passava de um pedaço de pão.
No que a sra. pensava antes de dormir?
Era desesperador. Por dois anos, antes de sermos capturados, ficamos escondidos. Eu já entendia que era perseguida por ser judia. Eles nos diziam que viveríamos assim até o último de nossos dias. E isso não demoraria a chegar. Eu sabia que eu não aguentaria muito. No fim, tive sorte. No dia 27 de janeiro de 1945, Auschwitz foi libertada pelos russos. Nem todos tiveram essa sorte. Alguns campos foram libertados meses depois e as pessoas não aguentaram. Anne Frank e sua irmã foram levadas de Auschwitz e colocadas em um campo que seria libertado muito depois. Se ela tivesse ficado, teria sobrevivido. Em janeiro, pelo que sabemos, ela ainda estava bem. Ela morreu em março.
O que a sra. lembra dela?
Nunca a vi no campo de concentração. Eram muitos os setores e não nos misturavam com as pessoas que chegavam. Para você ter uma ideia, não sabíamos nem mesmo sobre o Dia D ou que alguns países estavam sendo libertados. Quando conheci Anne, tínhamos 11 anos. Ficamos amigas, como duas meninas que se encontram para brincar. 
Vocês eram parecidas?
Não. Eu era quieta e envergonhada. Eu já tinha sido alvo de antissemitismo e de perseguição. Ela abandonou tudo na Alemanha quando ainda tinha 4 anos. Portanto, conseguiu evitar o sofrimento inicial. A família dela se estabeleceu em Amsterdã. Ela tinha muita confiança em si mesma. Ela era interessada nos meninos, gostava muito de roupas. Era vaidosa. Eu era mais um estilo moleque, bem diferente. Mas éramos próximas. Por dois anos, estivemos juntas, até que nossas famílias se esconderam em locais diferentes.
Para vocês, o que era a guerra?
No começo, não falávamos disso. Tínhamos de estar em casa antes das 20 horas por conta do toque de recolher. Não gostávamos. Mas, às vezes, isso nos permitia dormir na casa da outra, ficar por mais tempo juntas. Mas, depois que tivemos de nos esconder, tudo mudou. Acho que antes não tínhamos consciência do perigo em que estávamos. E, claro, nossos pais nos mentiam constantemente para nos proteger. 
Nos anos 50, o pai de Anne se casou com sua mãe. Como foi sua relação com ele?
Eu tinha a impressão de que, quando ele me olhava, tentava entender como sua filha não tinha conseguido sobreviver.